Minecraft e o isolamento digital

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Desde 2010 milhares de computadores do mundo inteiro têm apresentado sintomas graves de uma doença inexplicável. O paciente apresenta crises de febre, depressão e isolamento social. Quando o infectado sai para tomar um ar, a abstinência vem à tona, o que demonstra o surgimento de um vício, uma dependência desenfreada. Depressão? Longe disso.

O fenômeno Mincraft é fruto de um projeto independente criado em 2009, com lançamento em 2010. A ideia do jogo é bem simples: O jogador se encontra em uma ilha onde deve sobreviver a ataques noturnos de aranhas gigantes, zumbis e cobras. Para isso, deve utilizar tudo o que o ambiente lhe oferece, desde criar armas com pedaços de madeira a montar sua moradia para ficar seguro durante a noite.

Mas o que mais me chama atenção no jogo não é sua jogabilidade simples ou seus gráficos quadrados: Minecraft oferece uma oportunidade única para o jogador de fugir do mundo real e curtir sua própria solidão por horas a fio, sem sair de casa. Nada de combates com 150 outras pessoas na tela, ou dragões cuspindo fogo na sua cabeça. Nada disso, apenas você, sua casinha, e sua própria imensidão.

Sim, pois o sistema do jogo gera uma ilha personalizada para cada jogador. Indo contra as palavras proferidas por John Donne, “Nenhum homem é uma ilha”, o jogo entra em uma questão muito mais paradoxal do que podemos imaginar. No mundo “real”, cada um de nós é uma peça de um complexo sistema de engrenagens, ou, como diria Donne:

“cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria”

Mas, em Minecraft, não existe a dependência por outras pessoas. O mundo é o que você quer que ele seja. Me assusta o sem número de vídeos no YouTube de pessoas que criam verdadeiras cidades dentro do jogo – e cidades imensas! Pensei em um primeiro momento que todo esse universo é fruto de uma imensa falta do que fazer. Mas hoje vejo esse mundo com outros olhos. Acredito que nossa convivência social, às vezes, chega a um momento extremo onde, não importa para onde olharmos, alguém estará a menos de um metro de distância, seja fisica ou virtualmente.

Minecraft resolve essa poluição, esse excesso de convivência que temos a nossa volta. Ao ligarmos o jogo, todo nosso entorno se dissipa, e podemos brincar de Deus. Podemos curtir nosso próprio isolamento, ficarmos no silêncio da imensidão digital, curtir, mesmo que por poucos instantes, nossa às vezes tão necessária solidão.

Claro que os mais críticos vão dizer que podemos fugir para uma ilha deserta e ficarmos em paz, mas quantos realmente temos tempo e disposição de fazermos isso? Quantos não entram em desespero pelo sufoco causado pelo convívio em sociedade?

Minecraft não é um sucesso por ser apenas um jogo. É quase que uma solução para nosso stress. É filosofia sem querer. É, para muitos, o que significa “liberdade”.

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