“Por quem os sinos dobram” e a metamorfose da guerra

Annex - Cooper, Gary (For Whom the Bell Tolls)_01

Demorei 3 anos para ler Por Quem Os Sinos Dobram, que ganhei de uma amiga de aniversário quando fiz 19 anos. Tentei mais de uma vez começar a lê-lo, mas empacava na narrativa cadenciada de Hemingway. Sempre achei um absurdo nunca ter conseguido finalizar a leitura. Dessa forma, coloquei na cabeça em 2011 que conseguiria ler a obra inteira. Quem sabe um dia não resolvo fazer a mesma coisa com O Ensaio Sobre a Cegueira…

Confesso que hoje agradeço por ter demorado tanto para encarar o livro. Nos idos dos meus 19 anos eu ainda não tinha cabeça para entender o livro (e não sei se com 22 entendi), então foi bom amadurecer a ideia antes de lê-lo. Já havia lido O Sol Nasce Para Todos do Hemingway, mas este não tem a profundidade psicológica e narrativa de Por Quem os Sinos Dobram, então o tempo veio bem a calhar!

Apesar do autor não impor um ritmo alucinante da história que acabamos nos acostumando com obras mais “comerciais”, como os livros de Dan Brown (que também gosto bastante), Hemingway apresenta uma complexidade incrível nesta obra. A narrativa detalhada das atrocidades da Guerra Civil Espanhola é grotesca e chocante, sendo que o massacre dos fascistas no vilarejo uma das passagens mais brutais e repugnantes que já li até hoje, não pela violência com que os fatos se desenrolam, mas sim porque Hemingway faz questão de nos lembrar a cada morte que os sentenciados ainda são homens como todos nós, apesar de apoiarem o fascismo (não importa o motivo deste apoio). A “evolução” da sentença de morte no caos gerado pela turba enraivecida mostra que, não importa se nos consideramos “bons” ou “maus”, todos estamos sucetíveis a nos transformarmos em bestas cegas pelo ódio. A passagem se torna ainda mais chocante se considerarmos que o autor se propôs a descreve-la em 1949, quando o mundo ainda vivia a desgraça deixada de herança pela II Guerra Mundial e as engrenagens da Guerra Fria começavam a funcionar.

A guerra serve de pano de fundo para o desenvolvimento psicológico e emocional de Robert Jordan, um dinamitador americano que apoia a República contra o regime fascista. Nos 4 dias antes de cumprir sua missão de explodir uma ponte em pró de um ataque contra as forças de Franco, Robert se envolve com o grupo de guerrilheiros que o recebe para que a missão seja cumprida. Cada pessoa do grupo tem o papel de aflorar no protagonista, uma pessoa a princípio fria e objetiva, todas as emoções para que Jordan perceba o verdadeiro valor de sua vida e daqueles ao seu redor. Vencer a guerra é necessário, mas mais importante é estar vivo para viver a vitória.

A analogia do título a John Donne encaixa perfeitamente neste contexto. Robert começa sua missão achando que os guerrilheiros são peças para se alcançar a meta, mas o convívio com estas pessoas, seus medos, sonhos, amores e emoções, transformam o protagonista e o fazem refletir sobre sua própria vida, seu passado, e os sonhos para o futuro. Como Donne diz, um homem que se perde não é apenas uma única morte isolada, mas o luto de todos que conviviam com ele.

No fim das contas, a torcida não é para que a missão seja cumprida com sucesso nem pela derrota dos fascistas, mas sim para que Robert Jordan possa viver o dia de amanhã tendo plena consciência da importância de sua vida e de seus camaradas. Mais do que isso, passamos o livro torcendo para que nós mesmos possamos nos espelhar no exemplo do “Inglés” e descubramos o quanto desperdiçamos pequenos momentos de nossas vidas por trivialidades e desatenção, e como não sabemos apreciar as pessoas ao nosso redor e tudo que elas podem nos oferecer. Com certeza, um dos livros mais transformadores que já li até hoje. Obrigado, Hemingway.

Anúncios
Etiquetado , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: