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O amor e ódio por The Last of Us

Os momentos que sucederam os créditos finais de The Last of Us foram marcados por uma série de questionamentos: O que eu havia acabado de presenciar? Não… O que eu havia acabado de fazer? O que considero moralmente correto? O que restará da humanidade quando as coisas apertarem de verdade? O jogo inteiro me trouxe diversos sentimentos que eu jamais havia sentido com o controle de um videogame em mãos.

Eu sabia que não havia jogado algo simples. Um dia, aquele jogo seria lembrado como um dos maiores marcos da História dos videogames e, consequentemente, de como percebemos o que é arte.

Sim, arte, pois ainda há quem insista que jogos eletrônicos não podem ser considerados arte. A estas pessoas, peço para que joguem Journey, Shadow of the Collossus, ou até mesmo The Legend of Zelda: Ocarina of Time, e tente não se sentir transformado ou impactado pelas mensagens transmitidas nesses jogos, talvez mais do que “admirar” um quadrado vermelho em fundo branco em uma exposição qualquer.

Dentro dessa vertente de games-arte, The Last of Us é uma obra-prima. É quase impossível jogá-lo sem se chocar com a violência, muitas vezes desnecessária no contexto geral, ou com a efemeridade com que a vida é tratada em um mundo pós-apocaliptico… Que está logo ali, daqui vinte anos, o que torna a história inteira muito mais palpável do que nos sentimos confortáveis em admitir. Mas também é impossível não ficar admirado com o que resta de humanidade nas pessoas, que nos emociona por sentir que, no fundo, pode ser que haja esperança para o mundo.

Entretanto, The Last of Us é um jogo revoltante e repulsivo. É triste imaginar a humanidade na situação em que o jogo se encontra, mas pior ainda é ver as atrocidades que as pessoas fazem em momentos de desespero. Ou até mesmo como um conceito como liberdade vai por terra quando as pessoas passam a agir por conta própria, ignorando a vida alheia. É cada um por si, sem piedade, ao ponto de que você mata pessoas de facções criminosas sem pestanejar, mas sente o coração apertar quando se vê obrigado a eliminar um Clicker. Além do barulho medonho que produzem (jogue no escuro com fones de ouvido e você entenderá perfeitamente o que estou dizendo), os infectados apresentam uma evolução macabra de personagem. A princípio, todos são iguais, mas não demora para que discursos como “prefiro morrer a virar um deles” te lembrem de que eles, um dia, já foram pessoas como você. Da mesma forma, é complicado eliminar um infectado que está em sua própria casa… de vestido. Esse detalhe te faz imaginar o que estas pessoas estavam fazendo quando foram infectadas; esses adversários deixam de ser meros monstros e passam a ter uma identidade.

O que parece não se encaixar (ou se encaixar perfeitamente, dependendo do seu ponto de vista) é a relação entre Joel e Ellie dentro desse contexto desolador. Joel tem todos os motivos do universo para não acreditar na humanidade, e é emocionante ver o personagem ao longo do jogo, desde um pai assustado com o surto de fungos, até uma pessoa dura, sem coração, que é consumido pelos sentimentos reprimidos por tantos anos. Da mesma forma, Ellie evolui de uma garota inocente, que tem curiosidade pelo que aquele mundo um dia foi, para alguém com um instinto de sobrevivência aguçado, mas que não se sente à vontade em matar alguém. É só reparar em como ela atira, desviando o olhar da vítima.

Aliás, diria que a parte mais incrível de The Last of Us é a construção dos personagens, a mais perfeita e coerente desde… Sei lá, Ocarina of Time? Naquele jogo, acompanhar o crescimento de Link e de todo um mundo que, mesmo assolado pelas trevas, soube continuar vivendo, era sensacional. Dadas as devidas proporções, o cenário se aproxima muito de The Last of Us. E, sim, de um zilhão de outras histórias, mas poucas foram tão envolventes e bem contadas como essas duas.

Por essa comparação, já é possível cravar The Last of Us como um dos melhores e mais importantes jogos não só dessa última geração, mas da História. Como disse, o jogo é um marco em como se utiliza os videogames para se contar uma história.

E, aqui, gostaria de dizer que a experiência dentro dos consoles é incrível e imersiva, mas que dificilmente seria adaptada com excelência para o cinema. O que faz do jogo uma obra-prima é justamente essa construção de personagens e misto de sentimentos que a história te leva a sentir, missão a missão. Você deixa de ser mero espectador para viver aquela atmosfera. Você entende as motivações de Joel em cada uma das decisões tomadas, por mais que discorde. E acredito que esse status seria extremamente complicado de ser atingido no cinema, quando se dispõe de duas horas para te convencer de que aquele mundo é verdadeiro e que as personagens tem milhões de facetas diferentes. Claro que existem obras sensacionais para o cinema, e posso me provar errado daqui alguns anos… Mas acredito que The Last of Us desempenhou seu papel como uma das principais obras lançadas em 2013.

Obrigado, Naughty Dog, por ter me dado a oportunidade de conhecer Joel e Ellie, e acompanhar suas histórias.

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Sony, PSN, e o cyberterrorismo

Nesse exato momento, a PSN, rede online da Sony para o PlayStation, está fora do ar há 12 dias, e pouco, muito pouco, foi esclarecido aos usuários, que estão cada dia mais apreensivos sobre seus dados pessoais e curiosos por uma questão: Até quando?

O que sabemos com certeza: A PSN foi invadida por crackers há 2 semanas, e, por conta disso, o sistema está fora do ar. O que já não temos tanta certeza: A Sony teria deixado o sistema fora por tanto tempo por estar reforçando a segurança. Mas convenhamos que a Sony, do alto de toda sua experiência no ramo de eletrônicos, podia prever possíveis ataques à sua rede. Esse reforço na segurança não deveria ter sido feito antes?

Pior: Agora, usuários do mundo inteiro estão com dados comprometidos, e a empresa afirma que cerca de 10 milhões de contas de cartão de crédito podem estar comprometidas10 milhões. É um número significativo, não? A estimativa de prejuízo pelo vazamento de contas pode chegar a 50 milhões de Dólares, uma vez que o gasto médio de usuários da PSN é de 3 a 5 Dólares por compra. Os dados dos jogadores já estariam há venda no mercado negro, inclusive. O prejuízo para a Sony pelo vazamento de informações? Na pior das hipóteses, 24 bilhões de Dólares de prejuízo. É bastante dinheiro, concordam?

Como usuário da PSN, fico extremamente preocupado com a situação. A Sony já divulgou por duas vezes que o sistema será reativado “nesta semana” e com segurança reforçada (uma vez na semana passada e outra neste fim de semana). Mas fico preocupado pois a tal “segurança reforçada” pode ser um novo convite a crackers tentarem invadir o sistema novamente. A empresa já divulgou que os usuários serão compensados com 30 dias gratuitos de acesso à PSN Plus, serviço premium da PlayStation Network. Mas eu ainda acho pouco. Acho que os usuários de PSN Plus devem ser ressarcidos de alguma forma, afinal foram 2 semanas de serviço pago e inutilizável.

E a segurança dos jogadores, como fica? Será que as pessoas voltarão a confiar na Sony após essa crise? Eu estava estudando desbloquear meu cartão de crédito só para poder fazer compras online para meu console, mas pensei duas vezes depois do ataque, e acredito que não sou o único que pensou nessa possibilidade.

Além dos jogadores, vejo as produtoras perdendo muito dinheiro nessa história. No período de queda da PSN, tivemos o lançamento de Mortal Kombat, um dos jogos mais aguardados do ano. A expectativa era a de que os servidores ficassem entupidos de lutadores se estripando online, mas o que tivemos foi uma legião de fãs que tiveram pouco tempo de experimentação online, e no Brasil isso nem chegou a acontecer. Isso sem falar dos grandes jogos que já dominam os servidores, como Modern Warfare 2, Black Ops…

Enfim, espero realmente que a Sony consiga sair dessa, porque gosto muito do trabalho que vem sendo feito com a série PlayStation (senão não teria dois em casa :B), e espero do fundo do coração que ela tenha aprendido a lição de que, quando se está trabalhando com uma rede gigantesca de jogadores online, essa rede pode estar sujeita a invasões. E, claro, espero poder voltar a disputar minhas partidas de PES 2011 online o mais breve possível, sem que dados bancários de ninguém estejam circulando por aí sem autorização.

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Sobre Neil Gaiman, Steve Jobs e Playstation

Antes de mais nada, este não é mais um post em homenagem a Steve Jobs.

Terminei de ler nesta semana um dos melhores livros que já passaram pelas minhas mãos (e acredite quando eu digo que não foram poucos): Deuses Americanos (American Gods, em inglês), história sensacional narrada pelo mestre por trás de Sandman, Neil Gaiman.

No livro, Gaiman faz a pergunta de um milhão de dólares: No que realmente acreditamos? Até que ponto iríamos por algo que acreditamos ser a verdade absoluta? Na verdade, Neil toca num ponto sensível da humanidade, e que, muitas vezes, custamos a acreditar: Nossos deuses são etéreos, se transmutando a cada novidade que nos é apresentada. Em instantes nossas verdades já não são mais as mesmas, nossos sistemas não funcionam, nossos gadgets são ultrapassados, nossas vidas se tornam tediosas.

Mais do que isso, Gaiman nos mostra como idolatramos coisas que não merecem a divinização que possuem. Adoramos as facilidades apresentadas pela internet, ficamos horas hipnotizados pela televisão, nos reunimos religiosamente a cada 3 meses em frente ao computador para cada novo lançamento daquela empresa de Cupertino. Até que ponto estaríamos fazendo certo em levantar altares para coisas tão simples, em deixar estes fatos tomarem conta do nosso tempo? Ou será que, com nosso estilo de vida frenético e cada vez mais non-stop, adorar essas trivialidades é o que nos resta?

Por coincidência, terminei de ler o livro na mesma semana que perdemos Steve Jobs, o patriarca por trás da Apple. E, pulando as homenagens já feitas para o mestre da inovação, Jobs deixou como herança a seguinte afirmação: A de termos algo para acreditar, independente do que seja. Steve acreditou que poderia tornar a vida das pessoas mais fácil, e de fato conseguiu.

Jobs Criou sua legião de seguidores, que acreditavam em tudo que lhes era apresentado pelas mãos do criador. Uma legião de pessoas que tinham em Steve alguém para ter um ideal por elas; um messias dos tempos modernos. Mas Steve também tinha seus próprios deuses e suas crenças. Todos nós temos, até mesmo nossas próprias divindades. Isso viria a diminui-lo como inspiração para uma geração? Jamais.

Falando em deuses e crenças, a Sony lançou semana passada o filme “Michael” para seu Playstation 3. O filme deixa claro uma coisa: Para adquirirmos tal status divino, basta apertar o power e dar start. Afinal, controlamos vidas digitais a partir de um controle de videogame. E, assim como nossas crenças são etéreas, as de nossos avatares evanesce no momento em que desligamos nossos consoles. É ou não é brincar de Deus?

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